Archive for July, 2008

Tropeando em terras portuguesas

Este sábado passado (ontem-ontem, ontem-ontem!) peguei a motoca e me fui a terras portuguesas.

Essa região é um tantinho ao sul de Porto Alegre e foi colonizada pelos portugueses (Tapes, Mariana Pimentel, Camaquã e tal).

Fui atrás de minhas origens.

Em Mariana Pimentel e Sentinela do Sul (antiga Vila Vasconcelos) passei muito das minhas férias em casa do meu avô materno, seo Figueiredo.

Cortador de pedra de primeira, moirão sai lisinho quando ele cortava rochedos naturais. Meio-fio de rua era com ele. E ganhava uma grana legal.

Há muito que não revisitava tais lugares. A gente se urbaniza e esquece até o cheiro de bosta de vaca.

Por isso, saindo de Porto Alegre às 13:00, a primeira coisa a fazer foi almoçar um meio-espeto corrido no Restaurante das Cucas.

E de bucho cheio, tocar até a entrada secundária de Sentinela do Sul para visitar a chácara de meu pai, ali perto do seu Celi (nosso vizinho que cantava o terno de reis durante as noites de janeiro).

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Os farrapos e o MST

Sábado li uma interessante coluna do Juremir Machado da Silva no jornal gaúcho Correio do Povo. Quero compartilhar com os amigos a analogia feita pelo prof. da PUC-RS entre farrapos e o Movimento dos Sem-Terra.

Segue o texto abaixo (inseri algumas linhas em branco pra facilitar a leitura on-line):

OS FARRAPOS E O MST

Procuradores do Ministério Público querem extinguir o MST. Consideram que ele atenta contra o Estado de direito. Já o MST entende que os poderes constituídos não são sensíveis às necessidades básicas dos excluídos do campo.

No passado, os farrapos sustentaram uma guerra contra o poder central durante dez anos por razões semelhantes. Entendiam que o Império era tirânico e insensível aos interesses deles. Queriam pagar menos impostos. A diferença é que os farrapos eram fazendeiros. O Brasil era uma monarquia constitucional. Os farrapos atentaram contra o Estado de direito. Foram processados. Os procuradores deviam propor a proibição dos festejos da Revolução Farroupilha para evitar maus exemplos.

O MST invade propriedades alheias e talvez sonhe com outro regime ou sistema econômico. Os farrapos declararam uma república e separaram-se do Brasil. Boa parte da população do Estado não os apoiou. Eles passaram a dominar toda uma parte do território do Rio Grande.

Mais ou menos como as Farc. Deram-se o direito de invadir as terras dos ‘dissidentes’, de arrendá-las a quem quisessem e de apossar-se dos demais bens, vendendo gado e cavalos. O decreto de 11 de novembro de 1836 determinava o seqüestro, o arremate em hasta pública ou a venda de tudo que pertencesse aos ’súditos do Brasil’, inclusive mercadorias, prédios, gados, animais, muares, cavalares, escravos, móveis, embarcações, etc. ‘Súditos do Brasil’, fixava o decreto, eram todos os inimigos, ou seja, os que não estivessem de acordo com os ideais farrapos e a eles se opusessem. O decreto de 5 de abril de 1837 confirmou o anterior. Em 1838, outros atos continuaram o processo.

Os farrapos achavam o sistema injusto e impiedoso. O MST também.

A cisão entre os farrapos deu-se principalmente por causa disso. Um facção, liderada por Antônio Vicente da Fontoura, estava farta do desrespeito à propriedade. Houve saque, corrupção e arrendamento de cobiçadas propriedades de dissidentes a bons amigos. A documentação sobre isso é farta e está disponível. Basta ver a carta 185 da ‘Coletânea de Documentos de Bento Gonçalves’ sobre arrendamento de propriedade de inimigo. Ou (Coleção Varela 6182) a carta em que Neto refere-se a uma ‘espantosa ladroeira’ praticada por aliados, com nome e sobrenome, ‘com permissão para se estabelecerem na fazenda outrora do finado José Antonio de Freitas’. A maior dificuldade para se chegar à paz consistiu em saber quem indenizaria os proprietários lesados.

Os farrapos conseguiram transferir a conta para o Império. Ficaram anos ameaçando não entregar os negros que os imperiais exigiam e espichando uma guerra de guerrilhas que não ganhariam para que o poder central assumisse o que chamavam de ‘dívida externa’, pois, com a paz, as demandas judiciais de indenização seriam muitas e inevitáveis.

Cada época com os seus valores.

Aquilo que era válido no século XIX não parece legítimo hoje? Sofisma. O poder legal da época e os proprietários lesados pensavam exatamente como os de hoje em situação equivalente.

Chegamos ao paradoxo: o Rio Grande do Sul que tanto condena o MST festeja uma revolução cujas práticas e motivações eram equivalentes às do MST.

Os farrapos só estariam plenamente justificados se tivessem rompido com o Brasil pelo fim da escravidão. Não foi o caso.

As suas razões eram econômicas e políticas. Como se vê, temos tradição em invasão e apropriação de terras alheias.