A encruzilhada do tradicionalismo
Há alguns tempos acompanho tal situação:
Manter-se ferrenho aos ditames de outrora ou acompanhar o mundo moderno?

Nos idos de 1945 sabe-se que aconteceu a criação do movimento tradicionalista como uma forma de combater a “assimilação” exagerada de costumes externos (american way-of-life) em detrimento das coisas da terra (e invés da Coca-cola, resolvi ilustrar o american way com a goma de mascar, outra novidade importada).
O movimento tradicionalista fez um trabalho exuberante (noves fora as querelas e disputas internas) na revigoração de nossos hábitos. É muito comum hoje encontrar dentro de repartições públicas, residências, empresas e rodas de amigo o hábito do chimarrão. E cá entre nós, fazer um chimarrão é bem mais complicado do que abrir uma latinha de refrigerante ou servir-se de cafezinho.

Obviamente essa é a parte que mais facilmente visualizamos essas influências desse verdadeiro combate ao usos e costumes externos (da época).
As coisas tomaram ainda mais força nos anos 70, quando surgiram os festivais nativistas que lavaram de ponta-a-ponta os ambiente urbanos e rurais. Todo mundo cantando o campo, o cavalo, os bailes de interior, etc. De maneira ufanista - sim, por que não? - o pampa (e seus assuntos derivados, como o campeiro, a tosquia de overlhas etc.) virou senhor das músicas, livros etc.
Eu não sou contra e nem a favor. Era alguma coisa que a sociedade queria. E por isso encontrou aceitação em todos os costados. Políticos, engenheiros sociais, o comércio, artistas e o povo se beneficiou desse movimento.
Contudo…
Rá!
A invasão externa já não mete mais medo. Estamos num mundo globalizado. Exportamos churrascarias (quer símbolo mais tradicional de nossos usos e costumes) para o exterior. E as coisas de fora já são vistas com outros olhos, com os benefícios que nos trazem (Orkut, Google, carros Chevrolet, iPod, tênis Reebok, etc).
Bueno, eu não sou antropologista. Nem estudioso de coisas sociais.
Mas elas estão mudando… Como sempre estiveram.
E agora dentro do movimento tradicionalismo já desponta essa abertura. CTG´s trazendo artistas de outras searas para espetáculos em ambientes antes reservados para “coisas do campo”. Um ano é o super-famoso rodeio de Vacaria. Noutro, o rodeio de Osório.
Eu acho muito curioso quando os super-protetores de nossa cultura bradam gritos de crítica por que os rodeios estão virando verdadeiras festas comerciais. Hahaha, tudo é comércio em torno de nossa cultura e não há mal algum. Os bolicheiros viviam disso. Os vaqueanos. A indústria de cuia e erva-mate. Os estancieiros. As charqueadas.
Ora pois…
Uma vez conversei com um dos responsáveis por um CTG do Paraná. Faziam bailes de samba todas as 4as-feiras à tarde para o pessoal da terceira idade (ou melhor idade, segundo o eufemismo moderno). E enchiam o CTG de vida. E muitos dos participantes acabavam reatando laços com seu passado, com suas origens e passavam a comprar bombacha e frequentar o CTG nos outros dias. Era uma sedução sadia.
Hoje, aqueles que combatem aguerridamente esse bloqueio a usar os ambientes de CTGs para outras modalidades de lazer… Andam de automóvel, usam celulares, computadores, calças jeans etc. Mas recusam-se que essa modernidade abençoe o movimento tradicionalista.
Mas aceitam que o MTG crie o “selo tradicionalista” e o use para aprovar uma marca de erva-mate. Hahahaha, ora se isso não é transformar nossa cultura em objetivos comerciais, quero ser um mico.
Mas ao contrário dos fundamentalistas (desculpem o uso de palavra tão forte), eu sou favorável a associações comerciais desse tipo. Desta maneira entram recursos financeiros dentro do MTG que promovem ações culturais, premiações aos jovens, estimula competições de dança etc.

Mas voltando ao rodeio de Osório: curiosamente, a coisa tem um viés hierárquico exagerado. Além do MTG ameaçar os organizadores, também estende as “sanções” a todas as outras entidades tradicionalistas que ousarem apoiar o rodeio.
Há aquele argumento de que, quem não quiser aceitar os regulamentos ou estar associado ao MTG, “a porta é a serventia da casa”. Ou seja, 8 ou 800. Sem diálogo. Não estou afirmando que essa é a posição do MTG, que fique bem claro. Mas é o que grassa no meio. Eu sou contrário a “fugir da raia”. Acho que a pendenga deve ser debatida dentro da entidade.
E nessas horas de ortodoxia, recordo de algumas frases de Paixão Côrtes (cujo artigo inteiro coloquei aqui em Um peão apaixonado pelo Rio Grande):
- Nossa cultura precisa ser explorada e pesquisada. Conhecer as vertentes que surgiram aqui e ali. Falas, canções, vestuários, jeitos, etc. Não é para ser colocada em caixinhas, regulada, formatada, “assim pode, assim não!”. Nada de trilhos! Chega de “- Assim é que é o certo!”.
- Tchê Music. É uma vertente musical, assim foram várias outras no passado. Organiza-se sob um enfoque diferente. E indesejado? O desconforto é apenas no uso de instrumentos elétricos? Ou é por que escapa ao controle, por que não se submete a uma disciplina formalizadora?
Leram quem escreveu isso acima? PAIXÃO CÔRTES.
O que acho é que estamos no século XXI.
Há novamente movimentos de desintegração (ou modificações) de usos e costumes. Existem as drogas. As mais variadas opções de lazer (desde a cachaça até videogame). A família modificando sua estrutura (agora podem ser dois pais sem mãe, ou pai e mãe separados etc.).
E essas novidades não podem passar em branco pelo movimento tradicionalista.
Aceitar a guitarra elétrica dentro da entidade de arregimentar os jovens ou manter a coluna ereta e perceber, aos poucos, o esvaziamento daquele que já foi um abnegado salvador de nossos costumes?
Oh, yeah… Aceita o progresso ou mantém-se estanque?
Eis a encruzilhada do MTG.
Espero viver para assistir os próximos passos.
Abraços a todos,
El Cohen
admin :: Jun.01.2008
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Acho que deve haver liberdade para quem quer mudar, tentar coisas novas, buscar outros caminhos. Assim foi construída a história do Rio Grande e a própria história da humanidade.
Mas também deve haver liberdade para quem quer cultivar as tradições do passado, para quem acha que certos valores devem ser preservados e transmitidos de geração em geração, para quem acha que a modernidade está atropelando as culturas e as identidades individuais e que deve haver alguns ranchos mais tranqüilos e seguros, algo como o aconchego de nossa casa ao final de um dia agitado e estressante.
Cada um com suas preferências e sonhos. E ninguém pisando no poncho dos outros.
Kleber Diabolin
http://www.kwriter.com.br