Cultura perde Martins Livreiro

A notícia é bem triste e foi veiculada no Correio do Povo de amanhã, domingo:


Porto Alegre, 27 de janeiro de 2008.

O corpo de Manoel dos Santos Martins Livreiro, proprietário da tradicional livraria e Editora Martins Livreiro, foi sepultado no sábado no Cemitério João XXIII, em Porto Alegre. Ele faleceu aos 81 anos em conseqüência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), após uma internação desde 24 de dezembro passado no Hospital Mãe de Deus.

Livreiro desde 1953, fundou a primeira livraria ambulante do RS, percorrendo o Estado em um caminhão. Comercializava livros usados, esgotados e raros. Na década de 80 começou a editar, lançando cerca de 700 títulos em 800 edições de obras diretamente ligadas ao Rio Grande do Sul, numa trajetória sempre a serviço da cultura rio-grandense.

Entre os vários prêmios recebidos, Martins Livreiro, como era conhecido, foi condecorado com a Comenda Simões Lopes Neto, do governo Amaral de Souza (1982); Cidadão Emérito de Porto Alegre (1987); patrono da III Feira do Livro de Cachoeira do Sul (1987), cidade que o homenageou com o Diploma Patrimônio Histórico Cultural da Prefeitura de Cachoeira do Sul (1993) e o samba- enredo do Carvanal de 1995 ‘Martins Livreiro no Universo da Cultura’. Recebeu, ainda, prêmios como o Livreiro Mais Antigo, o troféu Homem Talento RS e o troféu Literatura Gaúcha – MTG (2005).

Sócio benemérito da Academia Rio-Grandense de Letras, receberia o prêmio Imortais, da Casa dos Açores do RS, no próximo 23 de fevereiro. A distinção é concedida em vida às pessoas que realizaram trabalho de destaque na área cultural do RS.


Porto Alegre, 27 de janeiro de 2008.

Morre Martins, o livreiro
Aos 81 anos, dono de editora morreu em decorrência de complicações por AVC

Um dos livreiros mais conhecidos do Rio Grande do Sul morreu às 18h15min de sexta-feira, em Porto Alegre.

Manoel dos Santos Martins, 81 anos, o Martins Livreiro, não resistiu às complicações de um acidente vascular cerebral que sofreu na véspera do Natal, em Balneário Pinhal, onde veraneava com a família. O sepultamento seria às 16h de sábado, no Cemitério João XXIII, na Capital.

Apaixonado por leitura, Martins, natural de Porto Alegre, começou a trabalhar aos 14 anos. Passava nas universidades oferecendo livros jurídicos e jornais. Em 1953, tornou-se sócio da Livraria Aurora. Três anos depois, montou sozinho sua própria banca, na Rua Jerônimo Coelho. O primeiro acervo veio da aquisição de uma biblioteca de um professor de Direito. Vendia publicações novas e usadas e sempre repetia:

- É lendo que se aprende.

No início da década de 60, passou para a Rua Riachuelo, numa loja com 400 metros quadrados, onde tinha um acervo de 45 mil exemplares. Sempre em busca de desafios, lançou em 1977 a Martins Livreiro Editora, com a obra “Voluntários do Martírio” de Ângelo Dourado. Em mais de 30 anos, publicou cerca de 800 obras, todas sobre história e cultura do Rio Grande do Sul. Editava livros de autores regionais conhecidos, como Nico Fagundes e Zeno Cardoso Nunes.

Em 1993, escreveu o “Memórias novas e usadas”, um resumo de sua história no mundo dos livros. Mesmo aos 81 anos, Martins Livreiro fazia revisava as publicações da editora.

A livraria passou para os genros em 1984. A editora será gerenciada pela filha Márcia Martins, que já vinha trabalhando com ele. Martins Livreiro deixa seis filhos (um já havia falecido) e a mulher, Deloci Moraes.

Eu não conheci “Seu Martins” diretamente. Sempre tive muito contato com a filha dele, a Márcia, pessoa que tocava a Editora. Sabia que “Seu Martins” morava no interior - Cachoeira do Sul - e vinha todas as 2as ou 3as-feiras dar andamento aos negócios.

Mas uma coisa sempre fiquei abismado:

A quantidade impressionante de livros que publicava em relação a cultura gaúcha. Fora um ou outro título que versava mais sobre faculdade ou coisa parecida, quase 100% dos títulos envolviam usos e costumes, literatura, poesia, etc.

Se eu olho minha biblioteca, na seção GAÚCHA, quase tudo é Martins Livreiro.

E o preço dos livros? Uma piada. Nem valia a pena tirar “xerox” por que acabava saindo mais caro do que comprar o livro.

E a distribuição? Era no aeroporto internacional, nos supermercados e até lá na rodoviária do fim-do-mundo.

E o carinho e atenção? Sabem como é, a fruta nunca cai longe do pé. Se a Márcia é a gente-fina e querida que todo mundo conhece, alguma influência “Seu Martins”teve.

Não sei o que acontece agora. Não sei que rumos a editora há de tomar (da última vez que conversei com a Márcia, ela disse que também estavam interessados no comércio de produtos gauchescos antigos, tipo um relicário ou algo assim).

Mas sei também que neste momento precisamos CELEBRAR a memória de “Seu Martins”. Não se trata de esperar alguém morrer para fazer homenagens. Ele as ganhou em vida, como a reportagem do Correio mostra acima.

Mas ele fez MUITO pela nossa cultura.

Quando não havia televisão com programas gauchescos, tinha um exemplar de “Curso de tradicionalismo gaúcho” do Nico ou “ABC do tradicionalismo gaúcho” do Lamberty pra ajudar a gurizada.

Quando a internet não vicejava como agora, lá no cafundós do Rio Grande, a turma se esgoleava em declamações, tendo um “Paisagens Perdidas” do Jayme Caetano Braun pra servir de base. E mesmo depois da internet, um “Na madrugada dos galos“, do Gujo.

Nossa, os volumes de “Almanaque do Gaúcho” feito pelo Barbosa Lessa. O best-seller obrigatório de todas bibliotecas: “Dicionário de regionalismos do Rio Grande do Sul” dos irmãos Nunes.

A criança pegando gosto pela terra lendo “Mitos e lendas do Rio Grande do Sul” do Nico. “Os contos gauchescos” do Simões em edição de BOLSO! O “Mão gaúcha” também do Barbosa Lessa. Coletâneas de poesia comemorando cinqüenta anos: do Jayme, do Luiz Menezes, do Nico, do Silva Rillo.

Quantas edições de “Antonio Chimango” circulam por este mundo de Deus, publicados pela Martins?

Havia espaço para todo mundo desde que circulasse pela seara cultural. Era “Bruxa gaudéria e o banco de loco“, “A arte de tocar o serrote musical“, “Rodeio de adágios” e “Degolados” são alguns dos exemplos.

Biografias? Uma penca delas… Cezimbra Jacques, Gaspar Martins, Honório Lemes, Juca Tigre…

História? Desde apanhados gerais como “História compacta do Rio Grande do Sul” do Quevedo e “História do Rio Grande do Sul” do Nico até registros mais profundos, como “Imigração judaica” e “Imigração e colonização polonesa” da Gritti ou “A imigração russa” do Zabolotsky.

Se o “Seu Martins” não foi um escritor, caramba…

Quantos e quantos deles tiverem seus projetos viabilizados devido a esta mão generosa que lhes emprestou a maneira de virem a público em todos os cantões do estado, do Brasil e do mundão mesmo?

Veja um dos títulos abaixo.

Diga-me se nunca bispou algum ou, ao menos, fuçou na livraria, na estante de algum supermercado ou casa de amigo?

A família espera tuas condolências.

Neste momento é importante registrar à ela o quanto este homem - sim, estamos falando de apenas UM homem - marcou nossas vidas, nossas opções culturais, nossas escolhas.

Telefone, email e endereço tu encontras aqui:

www.paginadogaucho.com.br/martins

Mas por favor, não te acanha.

Se não puder ligar, manda um email.

Mostra consideração e apreço a quem tanto fez pelo nosso Rio Grande e sua cultura.

El Cohen

PS: Estou triste, mas sei que em cada prateleira de biblioteca ou armáriozinho dum galpão miúdo, onde existir um exemplar da Martins Livreiro, “Seu Martins” vai estar por ali.

Abraços

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