Tau Golin e o manifesto contra o tradicionalismo

Recebi email (dia 19/04/2007) do historiador Tau Golin apontando reportagem e texto do “Manifesto contra o tradicionalismo”.

Ele sabe que não sou tradicionalista. E que na Página do Gaúcho há espaço para todos os textos e debates. Separatistas, tradicionalistas, anti-tradicionalistas, etc. Não gosto de apenas um viés da história. Dá-me a impressão de cercear a realidade, sei lá.

Daí que fui ler o texto.

Você pode ler aqui a entrevista ou o texto integral do manifesto, ambos sediados dentro do site do Instituto Humanitas Unisinos.

Como sempre, Tau escreve bem, mas…

Foto de Tau Golin
Extraído do blog www.santasaliencia.blogspot.com

De alguma forma, percebo uma raiva, um ranço em apresentar somente aspectos negativos do tradicionalismo. Que estes existem, eu não tenho dúvida. Aliás, venho alertando aqui no blog algumas coisas que me desagradam.

Mas não dá pra ser maniqueísta (8 ou 800). Tau diz que sempre tem alguém no tradicionalismo para agredir quem está fora do padrão. Ou usando brinco. E faz a apologia ao uso do brinco. Que era utilizado por marinheiros, pessoas ímpares. Ora, vamos devagar. Nem lá, nem cá. Será que ele lembra de citar os locais onde o brinco é aceito? Ou somente se apega aos casos da mídia?

Mais: quando eu vejo uma prendinha de 10 anos declamar para 10, 20 pessoas… Há algo de bom aí.

Quando eu vejo a juventude competindo para ver quem dança melhor, idem. Estão todos lacaios a serviço de um controlador maior?! Nenhum deles está em frente ao videogame, à TV a cabo. Nem na internet.

Acho que governos, poderes, etc podem ter se utilizado do tradicionalismo. Da imagem do gaúcho. Assim como também fizeram em outros países e em outros momentos.

Mas eu acho brabo quando as emoções se imiscuem em documentos que deveriam ser racionais e abalizar as questões de maneira científica.

Contudo, ao menos no meu site, todos tem vez.

E é inegável que muitos dos argumentos de Tau estão recheados de razão.

Abraços

Cohen

10 Responses to “Tau Golin e o manifesto contra o tradicionalismo”

  1. on 17 May 2007 at 18:23portalete

    Perfeita conclusão amigo Cohen. Nem 8 ou 800. Admiro Tau Golin pela sua paixão a história, mas acredito que ele exagera nas análises do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Eu, por exemplo, participo do Tradicionalismo defendendo uma ampliação de suas ações, o que já é feito em relação a diversidade étnica formadora do povo gaúcho. Lembra do tema da Semana Farroupilha do ano passado “Assim Se Fez o Gaúcho”. Outra questão: não podemos esquecer nossa proximidade e efeito cultural dos países vizinhos, onde nasceu o ‘gaúcho’… Claro que existem fatores dentro do MTG que precisam ser estudados, agora, dizer que tudo é uma droga…convenhamos…
    Minha filha se prepara para o concurso regional de prendas. Ela tem 13 anos, categoria juvenil. Por iniciativa própria, resolveu concorrer. Neste momento está apegada a livros (Moacir Flores, Sandra Pesavento, Paula Simon Ribeiro….). Será que estes autores são todos ‘alienados’? Quando estudamos “A PARTE E O TODO” do brilhante professor e antropólogo Ruben Oliven, será que somos retrógados???? Os jovens que participam do tradicionalismo organizado (e tem que ser organizado com regras, senão não funciona) aprende o valor do grupo, da aldeia, das raízes, da família, enfim, tem uma grande lição de vida. Ser tradicionalista, não é fechar os olhos para a situação do colono, do costeiro do Rio Uruguai, do operário, do imigrante….pelo contrário, é por enquanto, um dos poucos redutos, onde podemos estudar, discutir e buscar novos caminhos. Se nossa história tem militares, latifundiários, qual história não tem? Ser tradicionalista não é afirmar que os farrapos eram 100%, mas reconhecer que eles viveram e lutaram por um ideal daquela época, daquele contexto e que hoje ainda persiste. Se governantes usaram esta memória para proveito próprio, o tradicionalismo não pode ‘pagar o pato’… O tema deste ano desenvolvido pelo MTG e entidades é “MEIO AMBIENTE”. Será que isto é ser alienado?
    Portanto, nem tanto ao céu, nem tanto a terra….a discussão em alto nível ainda é a melhor saída. Se a imagem do gaúcho ainda possuí toda a ‘ornamentação carnavalesca’, vamos tentar aproximá-la da realidade. Mas antes, vamos estudar a ‘invenção das tradições’ e o ‘tradicionalismo e a globalização’……o caminho é por aí, no mais, é barulho de prato….

    saudações missioneiras…

  2. on 19 Jun 2007 at 10:50Dóro

    Parabéns, Cohen. Nunca frequentei um CTG, na adolescência, pela exigência da pilcha. Depois, quando me apateci pela música tradicionalista dos festivais dos anos 70, meus ouvidos foram lanhados pelo fim dessa verve, provocada pelo MTG que não apoiou essas iniciativas inovadoras. Depois, admirei os grupos foclóricos que iam aos festivais internacionais, mas me choquei com a exigência de saia longa, pelo MTG. Meu último prazer, com música gaúcha, foi ouvir o Netto Fagundes fazer fusion, em um rodeio. Porém, foi mal recebido pelos tradicionalistas. Veio a Tchê Music, que parecia ser uma boa maneira de lutar contra nordestina, e veio o MTG intervir novamente. Ouvi uma das últimas entrevistas de Barbosa Lessa, onde ele confirmou o óbvio: o gauchismo é uma invenção para valorizar o interiorano e impor o gaúcho diante do centro do país. A primeira música gauchesca, gravada pelos reminiscentes do Grêmio do Julinho, aproxima-se de um samba-canção. Barbosa Lessa, ainda, valoriza o chá-mate, antes vendido nas ruas e depois abolido pela entrada da Coca-cola no Estado.
    O MTG, nas últimas décadas, tolheu essa imposição do gaúcho diante as demais culturas e nem ao menos ouviu, totalmente, os argumentos desse intelectual. É momento de reavaliar o tradicionalismo, antes que ele seja extirpado da cultura das gerações vindouras.

  3. on 10 Jul 2007 at 23:44Luiza

    Cohen, acho deve haver um equilíbrio.
    Os fatos e evidências concretas estão, cada vez mais, ao nosso alcance , sendo esfregados em nossos narizes e nos gritando a verdade.
    Concordo com a revisão histórica proposta por Tau, mas que seja feita com mais cuidado e respeito, afinal o Brasil está cheio destes mitos históricos que estão cristalizados e fazendo parte da cultura…portanto, sejamos cuidadosos e pacientes que a verdade vai se apresentando aos poucos e tomará o seu lugar.
    Um abraço….

  4. on 25 Jul 2007 at 05:59Ismael

    Por ser um assunto polêmico, por ser a “página do gaúcho”(onde, por ignorância, achei que fosse encontrar um fulminante ataque ao manifesto contra o MTG) parabenizo o texto e os subseqüentes comentários pelo nível racional. O mais fácil é encontrar discussão acalorada e patética na internet.
    O importante desse “barulho todo” é chamar a atenção para o fato de que o gaúcho é muito mais complexo, multicultural e multiétnico que a imagem que tem hoje.
    Fico feliz pela afirmação de portalete de que, pelo menos uma parte do MTG, está interessada em rever conceitos, alargar o cercado para incluir o que não foi incluído. Mas a simples inclusão de grupos étnicos e culturas pelo MTG não resolve uma característica do movimento que é problemática na origem: a institucionalização do folclore. Folclore é cultura popular espontânea, transmitida de geração a geração. As relações sociais, as angústias, a tecnologia, o campo, as cidades alteram-se constantemente. As brincadeiras do povo (dança, música, teatro…) devem dar conta dessas mudanças. Dança-se aquilo que se é. Ouço aquilo que me conta. Folclore é brincadeira que, sim, não esquece o passado, mas que deve ser ágil o suficiente para ser de “qualquer hoje”, sob pena de ser largado.
    De que forma ele se transforma? O que não pode ser modificado? Só o povo pode dizer.
    Não defendo com isso a total falta de regras. A arte vive na eterna tensão entre a nova criação e o compromisso com o já estabelecido. Esse confronto é saudável e faz parte do jogo. Muitas culturas populares são (exceto quando se voltam a alguma competição, tendo então que se submeter a alguns critérios) mantidas sem manual e isso não quer dizer que são sem regras. A diferença é que estas são ditadas pelos que fazem a brincadeira e não por um manual escrito a poucas mãos.
    E viva o gaúcho campeiro, negro, índio, europeu, caboclo. Que o CTG seja APENAS UMA das formas de manifestação da cultura gaúcha. Não há galpão que dê conta de tanta diversidade.
    Abraços!

  5. on 11 Aug 2007 at 19:56JANINE PEREIRA

    Vejam bem, o Tau até pode estar exagerando com as suas restrições sobre o MTG, mas não podemos negar que o tradicionalismo, como tal, é um tanto quanto alienante, machista, patriarcal, principalmente quando do episódio de um desfile farroupilha, um homossexual foi linxado pelos cavalarianos em POA, então não aceitar o homossexualismo não é uma prova viva de que é necessário rever conceitos instituídos, quanto a ter paciência, ora não sejamos pessoas boazinhas medo de que a sociedade sul riograndense tem? Do seu passado? Ou melhor do que possa ser desvendado e que foi por muito tempo abafado? Quanto as coisas boas do MTG, acredito que tenham, mas veja bem o debate tem de vir à tona e ser debatido para que se problematize e seja possível dar voz à diversas outras culturas para que elas possam dizer que exisitem hoje e ontem. Afinal nosso estado se caracteriza não só por multi-etnicidade mas também por multi-culturalismo. E é neste sentido que eu concordo com Tau, talvez não na entonação mas na problematização do Movimento Tradicionalista quanto a figura do gaúcho ser o único representante deste estado.

  6. on 04 Dec 2007 at 10:30Everton

    Essa “agressividade” toda do Tau tb é precebida em suas obras. Parece ser algum recurso estilistico, algo um pouco valendo-se da “fúria dos injustos”

    Creio que nessa altura da discussao seja interessante perceber que o MTG foi vitorioso por alguma razão, quer dizer, embora seja calcado em alegorias de uma fase romantica que nao se comprova, nem atinge uma totalidade cultural, teve, e tem, forte apelo identificação popular, nao sendo apenas mais um produto da mídia, ou fruto de alguma “superestrutura”.

  7. on 04 Dec 2007 at 10:33Everton

    ops, erro de grafia… quis dizer sobre a “furia dos justos”…

  8. on 26 Aug 2008 at 22:18Jordana

    Ontem pesquisando sobre cultura gaúcha na rede, deparei-me com o manifesto, na própria página do mesmo, deixei impressa a minha opinião á cerca do ato, que vejo mais como político do que cultural.

    Fazendo a leitura do texto acreditei que este trata ”razamente da cultura”, e os resentimentos que imprime, embora ”fundamentados” são antagônicos com a situação cultural do RS.

    Pode-se derrubar instituições políticas de cunho cultural e vice-versa, mas não pode-se tirar da alma e do pensamento uma cultura criada por um povo (vide Max Weber), sim pois por pior que seja para os contrários, esta cultura foi criada pelo próprio povo gaúcho seja ela manipulada ou não, e esta mesma cultura foi constituída por vária etnias presentes nela mesma, prova-se isso muma simples observação da nossa lingua, dos nossos costumes, e das nosssas lendas, então torna-se impossível acabar com a cultura dita ”tardicionalista”; pois ela já não é mais tradicionalista é sim personalista cada qual a escolhe para sí, e de fato isso também não pode ser impidido por processo algum.

    Jordana Chaves

  9. on 30 Aug 2008 at 02:30Eugênia Aldebaran

    O Tau Golin é um tipo meio largado que exagera bantante quando escreve um tipo de história atolada em ideologia. Mas va lá… afinal cada um pensa o que quizer. Seu ataque ao tradicionalismo, contudo, é algo positivo na medida que ajuda a desconstruir o universo mitológico que essa gente apresenta como se fosse factualidade histórica! Esse gauchismo teatralizado cheio de danças, fantasias, declamações de poemas ruins é um negócio inventado por alguns tipos exóticos do final da década de 40 e que grudou na mentalidade dos rio-grandenses como chicle em pixaim, talvez para suprir um complexo de inferioridade com relação ao sudeste que sempre corroia a alma gaúcha transbordante de inveja… Sei lá… Só sei que a construção mítica do Glauco Saraiva, Paixão Cortes et caterva penetrou fundo como peido em elevador penetra nas narinas dos viventes! Golin ataca essa bobageira com razão. Entretanto a bobageira, afora seu reacionarismo e toda a fantasia, também tem alguns aspectos aproveitáveis, como o de, por exemplo, nos manter distantes da influência cow-boy de Barretos e do movimento sertanojo definhante! Mas, de resto, é uma merda enorme que merece receber a criolina que o Tau despeja sobre ela…
    Eugênia

  10. on 09 Sep 2008 at 22:37DANIEL CASTRO

    UM POVO TÃO CULTO COMO NOSSO NÃO TEM CONSCIÊNCIA DA NOSSA CULTURA FESTEJAR UMA DERROTA É DESATINO, PRINCIPALMENTE QUE PORTO ALEGRE NÃO FOI FARROUPILHA POR ISSO NÃO É O MELHOR LOCAL DA FESTA. QUANDO VOU A MINHA TERRA SÃO BORJA DEBOCHAM DOS “GAÚCHOS DE FIM DE SEMANA”.

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