MTG tornou-se globalizador?
Acabo de voltar de mais uma palestra do ciclo de eventos “Fronteiras do Pensamento“. São 23 palestras que ocorrerão o ano inteiro trazendo pensadores do Brasil e do exterior.
Hoje quem conversou com uma platéia lotada no Salão de Atos da UFRGS foi Peter Burke.
Historiador dedicado ao ramo cultural. Este inglês, com doutorado em Oxford, casado com uma brasileira, discursou em português completamente compreensível.
Quem quiser conhecê-lo melhor visite este link.
O conteúdo de sua palestra é-me muito interessante. Posto que hoje existem historiadores sociais, políticos, econômicos, etc numa quantidade imensa de ramificações, Burke é craque no âmbito cultural.
Tenho alguns assuntos entalados nesta área. O último é um registro da CBTG (Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha) criticando o MTG/SC por este permitir música sertaneja dentro de eventos gauchescos. Mas isso é pano pra outra manga que, espero, eu possa retornar em breve.
Burke discorreu sobre globalização cultural. Falou do passado onde havia uma tendência à homogeneização cultural. Traduzindo, uma americanização das culturas, contra a qual o pequenino - na época - movimento tradicionalista gaúcho revoltou-se. Exemplos como “Cocacolização” ou “McDonização” foram usados na palestra.
E papo vai, papo vem, Burke apresentou dois exemplos que alertaram meus gansos auriculares:
- A União Européia é um bom exemplo de resistência à globalização mundial cultural. Tenta manter costumes imunes ao que vem de fora - em geral, norte-americano, os eternos bicho-papões. Mas, salientou ele, ao fazer este esforço, a União realiza uma globalização interna, padronizando a cultura dentro da própria Europa e homogeneizando-se internamente.
- Outro exemplo foi o Islã. Na busca enfática de resistir aos hábitos e costumes ocidentais, estranhos a ele, acaba por aniquilar as diferenças culturais regionais (dentro do próprio Islã, vide as rixas no Iraque entre sunitas e xiitas).
Assim, eu fico a me perguntar:
O MTG, organismo criado para manter nossa cultura e resistir a uma globalização mundial e cultural, não estaria criando uma globalização (padronização) de nossa diversidade interna?
Quando estabelece regras de como usar bombachas, como eram as danças, etc… Ainda que não autoritariamente, mas na busca de disseminar “a forma mais correta, mais autêntica“, não poderia estar suprimindo as diferenças? A bombacha da campanha é igual à da serra? O lenço de pescoço tem que ser do lado de fora ou dentro da gola da camisa?
Citei exemplos concretos, objetivos, claros. O que mais pode estar submerso nas ações do MTG e que nem o próprio dá-se conta?
Será que no combate ao que vem de fora, não estaria exterminando o que vem de dentro?
Saliento: não estou a “criticar” o MTG. Não se trata de denegrir, “jogar pedra em árvore que dá fruto“, esses ranços vulgares. Não é por aí. Mas é preciso analisar os resultados e conseqüências dos movimentos da entidade.
Burke citou que existem próximo de 6.000 idiomas no mundo. Muitos deles vão morrer em função de uma substituição por língua mais globalizada. E com isso perderemos visões diferentes do mundo, uma riqueza que será difícil recuperar.
E… como fica nossa cultura sob o compasso da homogeneização do MTG?
Pense a respeito.
Abraços
El Co
admin :: Apr.10.2007
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