Do MTG-SC e a música sertaneja
Circula uma celeuma na internet citando o MTG-SC.

Dizem as notícias (e infelizmente a internet é pródiga em espalhar boatos) que a referida entidade está permitindo músicas sertanejas durante os rodeios em seu estado e sob sua organização (do MTG-SC).
As manifestações contrárias usam chavões como “alma gaúcha forjada pelo frio minuano é ofendida“, “estão se deixando levar pela onda globalizada“, “tradicionalismo frankstein“, “deturpação“, etc.
Um cadinho de emoções nostálgicas de um tempo que nem mesmo muitas destas pessoas viveram. Mas eu não estou a recriminá-los. Cada qual briga pelo que lhe apetece. E do jeito que acha mais adequado.
Minha opinião: PERMITAM AS MÚSICAS SERTANEJAS.
Oh! Oh! Oh!
Eu estou cansado de ver as coisas serem feitas por que “é assim que deve ser feito!” ou “assim que era naquela época”.
Pelo amor de deus, as coisas devem ser feitas para dar prazer, felicidade e valor!
Algumas pessoas estão se tornando mais reais do que o próprio rei!
Parte da tradição é inventada.
Barbosa Lessa já fez isso. A rainha da Inglaterra já fez isso. A igreja agora o faz, informando que as crianças não vão para o limbo e sim, direto ao paraíso. Quem pode afirmar de que lado o lenço campeiro era usado? Dentro ou fora da gola?!
É aceitável um patrão de CTG discutir assuntos com seu capataz através do celular em pleno rodeio? Ou usar computadores para listar os associados em dia? Ou receber a boiada em caminhão? Acender o palheiro com isqueiro? Usar energia elétrica para iluminar os bailes? Ou garrafa térmica para guardar a água do mate?
A música sertaneja - presumo aquela do interior de São Paulo - é uma co-irmã nossa. Trata dos mesmos assuntos: boi, vaqueiro, vida no campo, etc. Que mal há? Um medo de que tomem conta de nossa vida?
Mas quando nossos CTG´s invadem outros estados, quando churrascarias tomam conta do país, ninguém reclama ou contraria? São nossos feitos de qualidade sendo exportados e as outras culturas recebem esse quinhão de bom grado, pois são valores bons e interessantes.
Eu poderia adotar vários e diferentes enfoques para sustentar minha afirmação.
Mas busco meus argumentos num livro de famoso pesquisador e historiador cultural: Peter Burke (comentei sobre ele no post “MTG tornou-se globalizador“) que escreveu e editou, pela Editora Unisinos, o Hibridismo cultural.
O resumo da ópera é o seguinte: NÃO TEM VOLTA.
Estamos a misturar-nos com outras culturas.
Percebendo ou não, isso acontece. Querendo ou não, idem.
Seja no linguajar, onde falamos várias expressões em português e até em espanhol (espanhol pode, né?!), no modo de vestir (quem é que não põe um tênis no final de semana? Isso é campeiro?) e assim por diante (nem vou falar de uísque, carnaval, futebol, etc).
Excertos do livro:
A) A globalização cultural envolve hibridização. Por mais que reajamos a ela, não conseguimos nos livrar da tendência global para a mistura e a hibridização…
B) O preço da hibridização, especialmente naquela forma inusitadamente rápida que é característica de nossa época, inclui a perda de tradições regionais de raízes locais.
C) Como outras instituições européias, o carnaval foi transportado para o Novo Mundo, especialmente para aquela parte que foi colonizada pelos católicos do Mediterrâneo. O uso de fantasias e máscaras era um costume tradicional europeu, e mesmo algumas das fantasias favoritas seguiram modelos europeus, dos hussardos e arlequins do Rio aos pierrôs e polichinelos de Trinidad. O desfile das Escolas de Samba do Rio de hoje seguem a tradição dos cortejos e carros alegóricos da Florença e da Nuremberg do século XV.
D) Como a história das linguagens e dos dialetos, a história da cultura em geral pode ser vista como uma luta entre estas duas forças. Às vezes uma tendência predomina, às vezes a outra, mas elas alcançam um certo equilíbrio no longo prazo.
E) Os ternos europeus usados pelos membros da classe alta no Rio de Janeiro no século XIX são um exemplo vívido dessa moda. Os homens suavam em roupas de lã a tempraturas de quarenta graus para mostrar que faziam parte de uma classe abastada que não precisava fazer trabalho braçal, para se distinguir das pessoas comuns, ou para demonstrar seu comprometimento com os valores “civilizados” da zona temperada.
E) Segregação cultural… O que geralmente acontece é que as pessoas vivem uma vida dupla no sentido japonês da expressão, ou seja, na cultura anfitriã durante o horário de trabalho e em sua cultura tradicional nas horas de lazer.
F) Em nosso mundo, nenhuma cultura é uma ilha. Na verdade, já há muito que a maioria das culturas deixam de ser ilhas.
Finalmente, um trecho ainda mais interessante:
… é uma reação forte mas que pode não durar muito. A resistência está fadada ao fracasso no sentido de que os objetivos daqueles que fazem parte da resistência, deter a marcha da história ou trazer de volta o passado, são inatingíveis. No entanto, a resistência não é em vão, porque as ações de resistência terão um efeito sobre as culturas do futuro. Não será o efeito que desejaram, mas apesar de tudo será um efeito.
Tá feito.
De minha parte, venham as músicas sertanejas.
E que o público escolha aquelas que mais gostar!
Abraços
El Co
admin :: Apr.30.2007 :: Registros :: 8 Comments »





Hoje quem conversou com uma platéia lotada no Salão de Atos da UFRGS foi Peter Burke.

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