O que será de nossa cultura…

Uns piolhos virtuais me incomodam a mente.

Ontem li a matéria na Zero Hora sobre a criação de um CTG no Second Life. Tenho vaga idéia do que é este site, mas acho legal a gauchada se espraiar por tudo quanto é canto. Compartilhar nossos valores, costumes, etc. Enriquece a todos.

Contudo, o trecho que me coçou foi este:

Bourgoin - Realizaremos bailes ao som de música gaúcha todos os sábados. No início, vamos permitir a entrada de todos os avatares, mas, posteriormente, pretendemos fechar a land (terra virtual) somente para quem se associar ao CTG ou para convidados, desde que devidamente pilchados. A nossa intenção é respeitar ao máximo as determinações do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), principalmente no que toca à indumentária e aos costumes.

 

Gaúcho solitário, Glauco Revoredo Guerra

 

Há um ano e meio venho estudando grupos e questões de liderança. Um dos aprendizados é que “quando alguém não assume um determinado lugar, outro alguém vai e faz isso“. Os espaços vão sendo ocupados…

Onde pretendo chegar:

Por que as pessoas estão submetendo-se às definições do MTG para lidar com a cultura gaúcha? A maneira como o entrevistado se expressa, parece - a mim, pelo menos - que apenas a entidade é que conhece a nossa cultura.

Vejam, esta não é uma crítica ao MTG ou ao Bourgoin.

Acho que ambos estão batalhando pela nossa cultura.

Mas… É uma crítica à gauchada.

Alguém pode dizer que “CTG” é uma marca do MTG. Ah, falemos sério. A coisa é mais profunda…

Vamos analisar esta situação específica. Esquecer os dois nomes envolvidos. Abstrair para um plano maior, macro e perceber que uma entidade está ditando (ou politicamente correto, está apontando diretrizes, jeitos, etc) a forma e conteúdo de nossa cultura. Usos. Costumes. Etc.

Por que aceitamos esta liderança que se apresenta quase incontestável? Por que este lugar-comum de “cultura regional gaúcha” = MTG?

Estaríamos enfrentando um vácuo de lideranças regionalistas? Paixão Côrtes mostra-se como a única alternativa? Cadê outros historiadores, pensadores, etc?

(Tenho saudades de Barbosa Lessa)

Hay um temor dentro de mim que nosso grupo (gaúchos) venha delegar a responsabilidade de manter nossas tradições para o MTG. E teremos uma visão única. Que fará mal até para a própria entidade, pois os questionamentos sempre são importantes para evitar a soberba e outros problemas que a liberdade demasiada germina.

Sei que a própria entidade possui mecanismos internos para gerir abusos, etc. Mas sabe como é, quando alguém é autoridade única, exageros podem acontecer. Onde estão os contra-pontos?

Uma analogia regionalista: não dá pra ter somente um estancieiro e dono de toda a terra (leia cultura). É preciso ter vários, igualando-se em poder ou não. Pequenos. Grandes. Variados. O equilíbrio de forças faz bem. Até para evitar um “Grande Irmão” na cultura. Alguém que sabe tudo e a quem reverenciamos e pedimos amém. Ilustro com 1984 (o livro que deu origem ao teatro televisivo BBB da Globo) ou o filme “V de Vingança”.

Solução? Não sei.

Sei que não é culpa da entidade MTG por esta situação.

Afinal, ela batalha pela cultura e vem obtendo excelentes resultados. Não fosse a mesma, talvez vários hábitos estivessem esquecidos no passado. A responsabilidade desta situação que aponto não é da entidade, que faz seu trabalho adequadamente e com competência.

Mas talvez da gauchada. Um movimento de contra-ponto foi o nativismo. Surgido dos festivais, contestava certos dogmas da entidade. Outro é o historiador e professor Tau Golin contestando questões constrangedoras para a entidade. Essa pluraridade de visões sobre a cultura é necessária.

Ter consciência desse momento ajuda.

E próximo passo?

O que tens a dizer?

Abraços

El Co

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